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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Folia de Reis resgata cultura e agrada o povo




Centenas de pessoas acompanharam as apresentações do reisado em homenagem a Zé Raimundo, Lalu e Catarina


Uma burrinha que não desfilava há pelo menos 50 anos foi o grande sucesso do Terno de Reis Catarina Balaio de Fulô que encerrou os desfiles na noite da última sexta-feira (dia 6) arrastando uma multidão pelas ruas de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina. Jovens, crianças, adultos e idosos acompanharam as apresentações que resgataram uma tradição que havia desaparecido desde a morte de antigos reiseiros, a exemplo de Zé Raimundo e Lalu.

Organizado pelo recém-criado Grupo Cultural Cayam-Bola o Terno de Reis conseguiu resgatar algumas músicas tradicionais que são cantadas com entusiasmo nas ruas da cidade. De Catarina Balaio de Fulô, ao Rodou Piranha, passando por Serra Meu Baralho, Pisa no Caroço da Pitomba as canções atraíram principalmente os mais velhos, que recordaram o passado, e a crianças e adolescentes, encantados com a harmonia do espetáculo.

O Terno de Reis este ano optou por visitar apenas algumas casas, aquelas que agendaram previamente. Mas foi nas ruas, na passagem da Burrinha e dos cantadores e sambadores, que o evento chamou a atenção. A cada apresentação, o número de seguidores aumentava. As fotos postadas na internet também chamaram a atenção de brotenses residentes em outras cidades e até de outros países. Da Suíça, onde mora, Maria Lúcia dos Santos-Daeppen se diz encantada com o que está acompanhando através da internet.




AUTOESTIMA ELEVADA

Já Neuza Araújo, que reside nos Estados Unidos, por telefone, acredita que “resgates como esses são importantes para elevar a autoestima da população, especialmente daquela mais humilde, de onde a folia de Reis tem sua origem em nossa cidade”, Funcionária da Secretaria Estadual da Fazenda, Zilca Lenira Oliveira Campos, que reside em Salvador, também destacou “o belo trabalho de resgate das nossas tradições culturais”!

De São Paulo, a professora Eliran Oliveira destaca que “todo o descaso vivido pelo nosso município durante muitas décadas, não foi e nunca será motivo para desanimarmos, pois sempre surgirão pessoas e/ou grupos que, com talento e carinho, traz e resgata a riqueza cultural que faz parte do nosso povo e da nossa história”.

Várias manifestações de apoio ao regate cultural do resisado estão acontecendo em Brotas. O comerciante Noé Martins se disse encantado com a iniciativa e que já participou o fato ao seu amigo José Rosa, hoje residente em Camaçari. As famílias de Lalu e Zé Raimundo também marcaram presença no Terno de Reis, a exemplo da filha e da neta de Lalu, Preta e Neguinha, respectivamente. Do alto de seus 103, dona Chiquinha – parente de Zé Reimundo - recebeu a folia e, mesmo de cama, bateu palmas e festejou. Com lágrimas nos olhos, agradeceu pelo resgate, lembrando que fazia muito tempo que a Burrinha não saia nas ruas. Outro a se se manifestar foi Tadeu Viana, mostrando-se feliz e lembrando de suas origens na antiga Rua do Lagedinho e dos antigos reiseiros, como Zé Raimundo e seu filho Tota, Zé Bento e Lalu.

O resgate desta que é uma das maiores, mais belas e ricas manifestações culturais da Chapada Diamantina em Brotas de Macaúbas encantou ainda o prefeito Litercílio Júnior e a primeira dama Eliene, que receberam o Terno de Reis em sua casa e acompanharam o desfile pelas ruas na noite do último dia, 6 de janeiro. Júnior informou ter acompanhado outros reisados pelo interior do município, expressando a sua vontade de reforçar a luta pelo resgate desta que é uma de nossas mais ricas tradições populares.


domingo, 20 de novembro de 2011

As Bondosas em cartaz em Barreiras


Três inusitadas carpideiras - Angústia, Astúcia e Prudência, enquanto velam uma defunta - não só trocam alfinetadas umas com as outras, como também fazem hilariantes acusações a finada e aos seus familiares e condolentes

A Cia. Teatrando, de Barreiras, apresenta, nos dias 25 e 26 deste e 2 e 3 de dezembro, no Auditório Unyhana, em Barreiras, o espetáculo As Bondosas. A comédia é do dramaturgo cearense Ueliton Rocon e tem direção de Ruth Guimarães. A montagem traz à cena três hilariantes personagens femininas que resgatam a figura das carpideiras, mulheres que se dedicam ao ofício de velar os defuntos, com suas rezas, benditos e louvores.

O texto retrata um inusitado velório, onde essas mulheres provocam gargalhadas enquanto destilam venenos, com suas fofocas relacionadas aos familiares e condolentes presentes. Elas não se cansam de alfinetar, umas as outras, numa disputa incessante de qual delas é a mais pura, a mais indicada para tão desafiante ofício.

Contradizendo ao clima esperado em qualquer funeral, em As Bondosas, o público como co-participante dessa inusitada farsa, encontrará um ambiente bem humorado, cheio de interessantes e alegres surpresas.

DA MONTAGEM

A Cia. Teatrando, acreditando que o ser humano é o único animal que tem consciência do seu riso e da sua alegria, investe mais uma vez na Comédia.

Dessa vez, os seis participantes da referida Cia., formando dois elencos distintos, não só contemplam a participação de todos os integrantes no mesmo espetáculo, como também experimentam a possibilidade de aprender com a atuação do outro, que vive seu mesmo personagem. Assim sendo, o público terá a oportunidade de assistir a cada dia o mesmo espetáculo, mas com atuações diferenciadas.


FICHA TÉCNICA


Texto - Ueliton Rocon

Direção - Ruth Guimarães

Consultoria Cênica - Sérgio Vianna

Cenotécnico - Sérgio Vianna

Figurinos - Ruth Guimarães

Adereços - Dolores Gomes

Maquiagem - Cia. Teatrando

Elenco - Cleide Vieira, Clessia Rilen, Jéssica Oliveira, Lanna Seixas, Lucélia Gomes e Ramon Sousa

Produção Executiva - Cia. Teatrando

Classificação - 14 anos

Contatos - (77) 8101 5943/ 9814 6701/ 9111 5548

DA CIA. TEATRANDO

Criada há cinco anos, em Barreiras- BA, composta por um ator e cinco atrizes - com dedicação exclusiva na difícil tarefa do fazer teatral - está numa constante busca do aprofundamento dos elementos teóricos e práticos, participando, sempre que possível, de cursos, seminários e festivais.

No ano de 2 008, a atriz e diretora Ruth Guimarães assume a direção, montando os seguintes espetáculos: Em Nome de Deus, adaptação do clássico, O Santo Inquérito, de Dias Gomes; o Auto de Natal, O Boi e o Burro, uma adaptação do texto de Maria Clara Machado; o Infantil, Uni-Du-Ni-Tê, de Ramon Sousa e Ruth Guimarães e a comédia romântica, Casar ou Não Casar, Eis a QuestãO.

Tais espetáculos circularam em algumas cidades da região oeste da Bahia, além de duas importantes capitais como, Brasília-DF, no Espaço Cultural Renato Russo - 508 Sul, da Secretaria de Educação do Distrito Federal e em Salvador-BA, no Teatro Vila Velha.

A Cia. Teatrando também desenvolve trabalhos temáticos para instituições públicas e privadas, abordando os mais variados temas, elaborando projetos e montando peças e performances para espaços convencionais e Teatro de Rua.

sábado, 22 de outubro de 2011

Teatro na luta contra a fome


Companhia encena A Chegada de Lampião no Céu e no Inferno em palco de Ibotirama
A peça teatral A chegada de lampião no Céu e no Inferno, adaptada da obra do cordelista José Pacheco, volta aos palcos na cidade de Ibotirama pela Cia de Teatro Mistura, desta vez como parte da campanha “Natal sem fome”. Belíssima iniciativa que o grande diretor teatral Júlio Delfino nos envia para divulgação em nosso blog. Por apenas R$1 + um quilo de alimento não perecível será possível ver a apresentação marcada para a próxima quarta-feira, dia 26, às 19h, no Auditório do Cetep Velho Chico.

A Companhia é integrada por nove atores, além do diretor e assistentes de palco e de direção, contando com o apoio do Ponto de Cultura Tarrafa Cultural, local onde o grupo se reúne para ensaio e produção dos espetáculos. Nessa montagem o grupo traz uma comédia que conta um pouco da historia de Lampião.

Com um texto de José Pacheco e Rodolfo Coelho, adaptado por Marcílio Oliveira, A Chegada de Lampião no Céu e no Inferno traz o debate de Lampião com São Pedro e Lampião no Purgatório, onde as origens da literatura ressurgem com personalidade, prometendo fazer o público se envolver e dar boas risadas.

A peça tem direção de Gilberto Morais, coreografia de Jurandy Myranda e sonoplastia de Julio Delfino.

Veja um pouco do texto original do cordelista José Pacheco:

Um cabra de Lampião
por nome Pilão Deitado
que morreu numa trincheira
um certo tempo passado
agora pelo sertão
anda correndo visão
fazendo malassombrado.


E foi quem trouxe a notícia
que viu Lampião chegar
o inferno nesse dia
faltou pouco pra virar
incendiou-se o mercado
morreu tanto cão queimado
que faz pena até contar

Vamos tratar na chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu:
Quem é você, cavalheiro?
Moleque, eu sou cangaceiro:
Lampião lhe respondeu.

- Moleque não, sou vigia
não sou seu pareceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é o primeiro:
- Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.

Vigia disse assim:
fique fora que eu entro
vou conversar com o chefe
no gabinete do centro
por certo ele não lhe quer
mas conforme o que disser
eu levo o senhor pra dentro.


Lampião disse: vá logo
quem conversa perde hora
vá depressa e volte já
eu quero pouca demora
se não me derem ingresso
eu viro tudo asavesso
toco fogo e vou embora.


O vigia foi e disse
e satanás no salão:
saiba a vossa senhoria
que aí chegou Lampião
dizendo que quer entrar
e eu vim lhe perguntar
se dou-lhe ingresso ou não.

- Não senhor, satanás disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora!
eu já estou com vontade
de botar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.


- Lampião é um bandido
ladrão da honestidade
só vem desmoralizar
a nossa propriedade
e eu não vou procurar
sarna pra me coçar
sem haver necessidade.


Leve cem dúzias de negros
entre homem e mulher
vá lá na loja de ferragem
tire as armas que quiser
é bom avisar também
pra vir os negros que tem
mais compadre de Lucifer


E reuniu-se a negrada
primeiro chegou Fuchico
com o bacamarte velho
gritando por Cão de Bico
que trouxesse o Pau de Prensa
e fosse chamar Tangença
em casa de Maçarico.

E saiu a tropa armada

em direção do terreiro
com faca, pistola e facão
cravinote e granadeiro
uma negra também vinha
com a trempe da cozinha
e o pau de bater tempero.


Quando Lampião deu fé
da tropa negra encostada
disse: só na Abissínia
oh! tropa preta danada!
o chefe do batalhão
gritou de arma na mão;
- Toca-lhe fogo, negrada!


Nessa voz ouviu-se tiros
que só pipoca no caco
Lampião pulava tanto
que parecia um macaco
tinha um negro neste meio
que durante o tiroteio
brigou tomando tabaco.


Acabou-se o tiroteio
por falta de munição
mas o cacête batia
negro rolava no chão
pau e pedra que achavam
era o que as mãos pegavam
sacudiam em Lampião.

Lucifer mais satanás
vieram olhar do terraço
todos contra Lampião
de cacête, faca e braço
o comandante no grito
dizia: briga bonito
negrada, chega-lhe o aço!


Lampião pôde apanhar
uma caveira de boi
sacudiu na testa dum
ele só fez dizer: oi!...
Ainda correu dez braças
e caiu enchedo as calças
mas eu não sei dizer o que foi.

Lampião pegou um seixo
rebolou-o num cão
mos o que; arrebentou
a vidraça do oitão
saiu fogo azulado
incendiou o mercado
e o armazém de algodão.


Satanás com esse incêndio
tocou no búzio chamando
correram todos os negros
que se achavam brigando
Lampião pegou a olhar
não vendo com quem brigar
também foi se retirando.


Houve grande prejuízo
no inferno nesse dia
queimou-se todo dinheiro
que satanás possuia
queimou-se o livro de pontos
perdeu-se vinte mil contos
somente em mercadoria.


Reclamava Lucifer:
horror mais não precisa
os anos ruins de safra
agora mais esta pisa
se não houver bom inverno
tão cedo aqui no inferno
ninguém compra uma camisa.


Leitores, vou terminar
tratando de Lampião
muito embora que não possa
vou dar a explicação
no inferno não ficou
no céu também não entrou
por certo está no sertão.


Lampião foi no inferno
E depois no céu chegou
São Pedro estava na porta
Lampião então falou:
- Meu velho não tenha medo
Me diga quem é São Pedro
E logo o rifle puxou

São Pedro desconfiado
Perguntou ao valentão
Quem é você meu amigo
Que anda com este rojão?
Virgulino respondeu:
- Se não sabe quem sou eu
Vou dizer: sou Lampião.


São Pedro se estremeceu
Quase que perdeu o tino
Sabendo que Lampião
Era um terrível assassino
Respondeu balbuciando
O senhor... está... falando...
Com... São Pedro... Virgulino!


Faça o favor abra esta porta
Quero falar com o senhor
Um momento meu amigo
Disse o santo faz favor
Esperar aqui um pouquinho
Para olhar o pergaminho
Que é ordem do Criador


Se você amou o próximo
De todo o seu coração
O seu nome está escrito
No livro da salvação
Porém se foi um tirano
Meu amigo não lhe engano
Por aqui não fica não


Lampião disse está bem
Procure que quero ver
Se acaso não tem aí
O meu nome pode crer
Quero saber o motivo
Pois não sou filho adotivo
Pra que fizeram-me nascer?


São Pedro criou coragem
E falou pra Lampião
Tenha calma cavalheiro
Seu nome não está aqui não
Lampião disse é impossível
É uma coisa que acho incrível
Ter perdido a salvação


São Pedro disse está bem
Acho melhor dar um fora
Lampião disse meu santo
Só saio daqui agora
Quando ver o meu padrinho
Padre Cícero meu filhinho
Esteve aqui mas foi embora


Então eu quero falar
Com a Santa Mãe das Dores
Disse o santo ela não pode
Vir aqui ver seus clamores
Pois ela está resolvendo
Com o filho intercedendo
Em favor dos pecadores


Então eu quero falar
Com Jesus crucificado
Disse São Pedro um momento
Que eu vou dar o seu recado
Com pouco o santo chegou
Com doze santos escoltado


São Longuinho e São Miguel,
São Jorge, São Simão
São Lucas, São Rafael,
São Luiz, São Julião,
Santo Antônio e São Tomé,
São João e São José
Conduziram Lampião


Chegando no gabinete
Do glorioso Jesus
Lampião foi escoltado
Disse o Varão da Cruz
Quem és tu filho perdido
Não estás arrependido
Mesmo no Reino da Luz?


Disse o bravo Virgulino
Senhor não fui culpado
Me tornei um cangaceiro
Porque me vi obrigado
Assassinaram meu pai
Minha mãe quase que vai
Inclusive eu coitado


Os seus pecados são tantos
Que nada posso fazer
Alma desta natureza
Aqui não pode viver
Pois dentro do Paraíso
É o reinado do riso
Onde só existe prazer


Então Jesus nesse instante
Ordenou São Julião
Mais São Miguel e São Lucas
Que levassem Lampião
Pra ele ver a harmonia
Nisto a Virgem Maria
Aparece no salão


Aglomerada de anjos
Todos cantando louvores
Lampião disse: meu Deus
Perdoai os meus horrores
Dos meus crimes tão cruéis
Arrependeu-se através
Da Virgem seus esplendores


Os anjos cantarolavam
saudando a Virgem e o Rei
Dizendo: no céu no céu
Com minha mãe estarei
Tudo ali maravilhou-se
Lampião ajoelhou-se
Dizendo: Senhora eu sei


Que não sou merecedor
De viver aqui agora
Julião, Miguel e Lucas
Disseram vamos embora
Ver os demais apartamentos
Lampião neste momento
Olhou pra Nossa Senhora


E disse: Ó Mãe Amantíssima
Dá-me a minha salvação
Chegou nisto o maioral
Com catinga de alcatrão
Dizendo não pode ser
Agora só quero ver
Se é salvo Lampião


Respondeu a Virgem Santa
Maria Imaculada
Já falaste com meu Filho?
Vamos não negues nada
– Já ó Mãe Amantíssima
Senhora Gloriosíssima
Sou uma alma condenada


Disse a Virgem mãe suprema
Vai-te pra lá Ferrabrás
A alma que eu pôr a mão
Tu com ela nada faz
Arrenegado da Cruz
Na presença de Jesus
Tu não vences, Satanás


Vamos meu filho vamos
Sei que fostes desordeiro
Perdeste de Deus a fé
Te fazendo cangaceiro
Mas já que tu viste a luz
Na presença de Jesus
Serás puro e verdadeiro


Foi Lampião novamente
Pelos santos escoltado
Na presença de Jesus
Foi Lampião colocado
Acompanhou por detrás
O tal cão de Ferrabrás
De Lúcifer enviado


Formou-se logo o júri
Ferrabrás o acusador
Lá no Santo Tribunal
Fez papel de promotor
Jesus fazendo o jurado
Foi a Virgem o advogado
Pelo seu divino amor


Levantou-se o promotor
E acusou demonstrando
Os crimes de Lampião
O réu somente escutando
Ouvindo nada dizia
A Santa Virgem Maria
Começou advogando


Lampião de fato foi
Bárbaro, cruel, assassino
Mas os crimes praticados
Por seu coração ferino
Escrito no seu caderno
Doze anos de inferno
Chegou hoje o seu destino


Disse Ferrabrás: protesto
Trago toda anotação
Lampião fugiu de lá
Em busca de salvação
Assassinou Buscapé
Atirou em Lucifer
Não merece mais perdão


Levantou-se Lampião
Por esta forma falou
Buscapé eu só matei
Porque me desrespeitou
E Lucifer é atrevido
Se ele tivesse morrido
A mim falta não deixou


Disse Jesus e agora
Deseja voltar à terra
A usar de violência
Matando que só uma fera?
Disse Lampião: Senhor
Sou um pobre pecador
Que a Vossa sentença espera


Disse Jesus: Minha mãe
Vou lhe dar a permissão
Pode expulsar Ferrabrás
Porém tem que Lampião
Arrepender-se notório
Ir até o "purgatório"
Alcançar a salvação


Ferrabrás ouvindo isto
Não esperou por Miguel
Pediu licença e saiu
Nisto chegou Gabriel
Ferrabrás deu um estouro
Se virou num grande touro
Foi dar resposta a Lumbel

Resta somente saber
O que Lampião já fez
Do purgatório será
O julgamento outra vez
Logo que se for julgado
Farei tudo versejado
O mais até lá freguês.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Caruru de Cosme e Damião, tradição da Bahia?



“São Cosme mandou fazer


Uma camisinha azul


No dia da festa dele


São Cosme quer Caruru


“Cosme e Damião


Vêm comer teu Caruru


Que é de todo ano


Fazer Caruru pra tu”

Uma das melhores coisas que conheci em Salvador foi sem dúvida uma iguaria feita com quiabos: o caruru. Trata-se de uma instituição baiana que, de tão popular, virou sinônimo de um conjunto de comidas – vatapá, xinxin, arroz, farófia de dendê, abará e acarajé e um sem número de outros complementos, a depender da data e da ocasião. Costumava me refestelar com tais iguarias, um costume quase religioso às sextas-feiras. Lembro que da primeira fez que a comida foi feita em minha casa saí cedo para comprar o quiabos no antigo Hiper Paes Mendonça.

Para minha surpresa, uma mulher dócil e diligente ajudou-me na escolha – “tem que cortar a ponta meu filho, se partir fácil, é porque está bom”, me segredou dona Claudionor Teles Veloso, Dona Canô, a mãe de Caetano e Bethania. Nunca me esquecerei do sorriso daquela senhora, hoje com 104 anos, que me iniciou nessa importante empreitada, “porque quiabo duro não presta pra fazer caruru”.

Nesta terça-feira, 27 de setembro, Salvador se transforma num imenso caruruzal. Milhares de casas preparam essa iguaria e a oferecem a sete meninos, multiplicando as homenagens aos santos gêmeos Cosme e Damião e aos Ibejis com os quais os devotos católicos e de santos do Candomblé se desdobram em fazê-lo. Hoje, estou morando aqui na Chapada Diamantina – cartão postal do Brasil -, mas em minha Brotas de Macaúbas natal pouco se conhece de caruru muito menos de Ibejis. Fica na saudade de um dos melhores rangos que já provei em minha vida.

Traço cultural do povo baiano, o caruru não permeia, infelizmente, todas as regiões do estado.


ACTA E PASSIO
O caruru de Cosme e Damião está inserido nos cultos afro-brasileiros que celebram os santos gêmeos a 27 de setembro, um dia após os mesmos serem lembrados pela Igreja Católica . Os nomes originais dos santos eram Acta e Passio, originários da Síria e Armênia e que pregavam o cristianismo, "curando as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder". Passaram depois a ser conhecidos como Cosme (O Enfeitado) e Damião (O Popular). Foram perseguidos e mortos por Diocleciano (303), acabaram padroeiros de cirurgiões, físicos, farmacêuticos e faculdades de medicina em geral. Além de barbeiros e cabeleireiros.

Os santos Cosme e Damião no Brasil, além do caruru tão apreciado, uniram as nossas três culturas básicas, formadoras da nação brasileira: portuguesa, africana e indígena. A devoção nos foi trazida por colonizadores portugueses, mas os escravos que aqui vieram, todos da África Ocidental (Angola, Costa do Marfim, Guiné, Congo), mantiveram os rituais religiosos e a fé nos deuses de sua terra distante. Inclusive nos orixás-meninos (Ibejís). Mas aprenderam a sincretizar com os santos católicos, cujos cultos lhes eram impostos.

Na festa manda a tradição distribuir brinquedos e doces com a criançada; porque, segundo se acredita, só assim serão atendidos os pedidos feitos aos Santos. Em muitos lugares, especialmente na Bahia (Salvador e cidades ao seu entorno), a celebração se faz sobretudo com mesa farta, servindo-se pratos preparados com azeite (de dendê, claro), usado sobretudo em peixes, mariscos e vegetais, próprios para dias de abstinência e jejum. Entre eles abará, acarajé, bobó de camarão, efó, frigideiras, maxixadas, moquecas, vatapá, xinxim de galinha; e, principalmente, o Caruru. Reza a tradição que primeiro deve-se se servir a sete crianças (preferencialmente meninos) que o comem com as mãos, sentadas no chão.

O nome caruru vem de caá (folha) ruru (inchada), receita indígena feita originalmente apenas de ervas socadas com pimenta, no pilão. Os escravos africanos foram acrescentando novos ingredientes: amendoim, azeite de dendê, camarão seco, castanha de caju, cebola, gengibre, quiabo. E quanto mais quiabo tenha o caruru, mais importante é o prato. A receita foi depois levada de volta para África, em cada lugar recebendo nomes diferentes: calulu em Moçambique, Congo, Cabinda e São Tomé; funji de peixe, em Luanda; obbé em Nigéria e Daomé.



RECEITA DO CARURU

Ingredientes

2 kg de quiabo

5 cebolas

300 gr de camarão seco

250 gr de amendoim

250 gr de castanha de caju

1 colher de chá de gengibre ralado

1 xícara de azeite de dendê

Sal

Preparo

- Lave o quiabo, deixe escorrer e seque bem. Pique bem miúdo. Reserve.

- Passe as cebolas no processador. Reserve.

- Passe metade do camarão seco no processador. Reserve.

- Bata no liquidificador o amendoim e a castanha com meio copo de água. Reserve.

- Em uma panela coloque azeite de dendê. Refogue cebola e quiabo. Junte os camarões secos (os triturados e os inteiros). Depois, junte também gengibre, castanha e amendoim. Se necessário, coloque sal. Deixe no fogo, até engrossar.



Caruru de Cosme e Damião

Com texto e fotos da jornalista Agnes Mariano, deixo aos leitores mais um pouco da história dos santos gêmeos e do caruru nosso de todos os dias:

“A festa é caseira, mas farta. Todos os anos, no mês de setembro, ela acontece em milhares de lares baianos. Difícil imaginar uma mais sincrética. O “Caruru de São Cosme e São Damião” homenageia os santos gêmeos da igreja católica, os Ibêjis do candomblé e também as crianças. Tudo precisa ser feito no mesmo dia: caruru, xinxim de galinha, vatapá, arroz, milho branco, feijão fradinho, feijão preto, farofa, acarajé, abará, banana-da-terra frita e os roletes de cana. A dimensão da oferenda é medida pela quantidade de quiabos do caruru. Cada um faz como pode: mil, três mil ou até 10 mil quiabos. Quando a comida fica pronta, coloca-se uma pequena porção nas vasilhas de barro aos pés das imagens dos santos, ao lado das velas, balas e água. Depois, serve-se o caruru a sete meninos com, no máximo, 7 anos cada. Eles comem juntos, com as mãos, numa grande gamela de barro ou bacia. Só então é a vez dos convidados participarem da celebração.

A história da devoção a São Cosme e São Damião é antiga e atravessa continentes. Na Bahia, a fé nos santos irmãos ganhou importância principalmente pelo sincretismo com Ibeji, o orixá duplo dos nagôs, que representa os gêmeos. A mistura foi tão completa que ultrapassou a fronteira das religiões e classes: católicos e adeptos do candomblé, ricos e pobres oferecem a mesma comida sacrificial do candomblé às imagens dos santos cristãos. E mais, chega-se a fabricar imagens dos santos que incorporam uma terceira figura – Doú – uma corruptela de “idowu”, o nome dado, numa família nagô, àquele que nasce depois de um par de gêmeos. “Sempre tidos como muito traquinas, os idou deram origem ao ditado nagô: Exu lehin Ibeji – Exu vem depois dos Ibeji”, explica o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, em seu texto “Cosme e Damião no Brasil e na África”.

Quem assume a devoção aos santos e a obrigação de oferecer o caruru todos os anos, geralmente tem um bom motivo. Há 25 anos, no mês de setembro, Joselita Bulhões deu à luz a um dos seus filhos. Muitos moradores de Muritiba já estavam envolvidos com as festividades para os santos, que incluía caruru e foguetes. A criança, que tinha nascido com problemas respiratórios e peso excessivo – seis quilos -, por ter engolido o líquido da placenta, foi imediatamente para o médico. À noite, quando tinha retornado para casa, já à salvo da primeira dificuldade que enfrentou no mundo, o bebê novamente correu risco de vida. O vizinho da casa em frente resolveu soltar foguetes para homenagear os santos. O primeiro deles quebrou uma telha da casa de Joselita e caiu sobre o travesseiro onde o bebê dormia, a poucos centímetros do seu rosto. Interpretando esses acontecimentos como provas da intervenção dos santos irmãos, Joselita decidiu oferecer, todos os anos, o caruru em homenagem a eles. Hoje adulto, o seu filho, que também se tornou médico, como Cosme e Damião, faz questão de colaborar para manter a tradição.



Na família do Mestre Curió, da capoeira Angola, a tradição do caruru vem dos antepassados. “Começou com meu bisavô, passou pra meu avô e depois pra meu pai, que parou porque entrou para a lei de crente”. Além da vontade de prosseguir com a tradição familiar, Mestre Curió decidiu “tomar essa responsabilidade” por uma impressionante coincidência na sua vida: “Sou gêmeo, minha mulher é gêmea, tenho um casal de gêmeos e minha mãe era gêmea”. O caruru, que ele oferece em janeiro – mês do seu aniversário e do seu grupo de capoeira – acontece em três etapas. A primeira é na academia Mestre Pastinha, com três mil quiabos. A segunda, na academia dos Irmãos Gêmeos – para os sete meninos, alunos e convidados. E, depois, em sua própria casa.



Oferenda, sacrifício e obrigação

Os santos são católicos, mas a forma de homenageá-los é africana. Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, “os iorubás, em suas várias etnias, entendem o sacrifício, o ebó, como a forma essencial da sua comunicação com os orixás”. O caruru – dos Ibeji ou de São Cosme e São Damião “seria, então, mais do que uma oferenda, mas um sacrifício: o que na Bahia, o povo-de-santo chama de ‘obrigação’, que tem um preço e custa dinheiro. É como se desfazer de algo muito valioso”.

Joselita Bulhões conta que, nesses 25 anos, pensou algumas vezes que não fosse fazer o caruru, por causa de problemas financeiros, mas sempre conseguiu manter a promessa. “Pra mim, eles são santos vivos: o que você pedir, eles atendem. Uma vez, a situação estava tão difícil, que eu fiz uma prece bem forte. Na mesma hora, meu marido entrou. Tinha conseguido um dinheiro, nós mudamos de casa e eu fiz o caruru”, conta ela, que tem um pequeno oratório para os santos na lavanderia de sua casa. Hoje em dia, oferece anualmente um caruru completo e farto, com mais de dois mil quiabos escolhidos cuidadosamente na Feira de São Joaquim.

Nas últimas décadas, tem sido feita freqüentemente uma associação entre os santos católicos e os erês, que é um estado infantilizado do transe no candomblé. Por isso, inclui-se a distribuição de balas, doces e refrigerantes nas homenagens aos santos, especialmente no Rio de Janeiro. Mas são poucas as casas de candomblé que fazem obrigações para os Ibeji, geralmente discretas e não necessariamente em setembro. Outro detalhe é que não se tem notícias de filhos-de-santo de Ibeji na Bahia.



Coisas da Bahia

Todos os dias, antes das 6h, quando acontece a primeira missa na Igreja de São Cosme e São Damião, no bairro da Liberdade, já é possível encontrar pessoas na porta. Pequena, simples, mas visitada durante o ano inteiro, a igreja precisa conviver cotidianamente com o sincretismo que caracteriza a devoção a esses santos. “Só na Bahia existem essas imagens com Doú. Quando as pessoas trazem elas, nós explicamos que não podemos benzer e elas trocam as imagens”, explica o padre Ciro. Com muitos fiéis também em outros países, o padre lembra que existem igrejas para São Cosme e São Damião em Roma e no Rio de Janeiro, e que existe uma missa própria para eles na liturgia católica. O dia reservado para os santos é 27 de setembro.

Para os católicos, não há provas de que os santos fossem gêmeos. Conta-se que eles eram irmãos, nascidos na Arábia e filhos de uma viúva. Formados em medicina, na Síria, além das curas realizadas, pregavam o cristianismo. Por estarem convertendo muitas pessoas e também por trabalharem gratuitamente, foram perseguidos e condenados pelo tribunal de Lísias. Sofreram muitas torturas, às quais sobreviveram, até que, em 303, foram decapitados. “Eles são santos muito carismáticos, porque defendiam os humildes, curavam as doenças físicas, sem nunca terem cobrado um centavo. Curavam, também, as doenças da alma”, comenta o padre Ciro, explicando a legião de devotos que os santos conquistaram nos últimos séculos.

Vitalino dos Santos, 67 anos, que trabalha na Paróquia de São Cosme e São Damião desde 1957, já viu muitas formas de manifestação de fé. “As pessoas trazem velas para acender e imagens para ficar na igreja”. Para ele, seja no caso de São Cosme e São Damião ou qualquer outro santo, o mais importante é o exemplo que deixaram: “Os santos foram pessoas como nós, que enfrentaram muitas dificuldades, mas com força e coragem”.


Comida de sexta-feira

Seja por motivos religiosos, gustativos ou nutricionais, o caruru é um prato sempre presente na mesa baiana. Já é uma tradição: na sexta-feira, a maioria dos restaurantes da cidade inclui o prato no cardápio. Em setembro, por causa do caruru religioso, os comerciantes aproveitam para subir os preços dos produtos, porque têm a certeza de que as vendas irão aumentar.

Na Feira de São Joaquim, onde a maioria dos devotos se abastece, o preço do quiabo varia a cada dia de setembro. Segundo o feirante conhecido por Toinho, as vendas já foram bem melhores. “Agora todo mundo é crente, pouca gente dá caruru. Antes, numa rua qualquer, mais de 10 casas davam caruru”, afirma ele, sem negar que o aumento das vendas ainda acontece. “Se normalmente eu vendo quatro sacos por mês, em setembro, são oito ou 10 sacos de quiabo”, sintetiza o feirante José Paes. Sobre os preços, a feirante Maria Lúcia Falcão explica: “Ontem, o cento estava por R$2,00. Hoje está por R$1,50, porque entrou mais quiabo. Depois do dia 10, vai para R$2,50 ou R$3,00”.

Alguns usam só quiabo, cebola, sal, camarão e azeite de dendê. Outros acrescentam castanha, amendoim, pimentão e tomate. Segundo a nutricionista Joseni França, o caruru é mesmo um prato muito rico: “O quiabo tem muito ferro, mas um tipo de ferro que para ser melhor assimilado precisa ser combinado com fontes de vitamina C, como limão, tomate, pimentão. O dendê tem o betacaroteno, que o nosso corpo transforma em vitamina A, boa para a pele e para os olhos. Já com as castanhas e o amendoim, o prato ganha em proteínas e uma forma saudável de gordura”.



CURIOSIDADES

- Mas por que caruru para sete meninos? Segundo a peculiar tradição afro-luso-baiana, existiam sete irmãos: Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi, conta Odorico Tavares, em seu livro “Bahia – Imagens da terra e do povo”.

- A fertilidade das iorubás, que tem inclusive motivado pesquisas médicas, provavelmente é um dos motivos da importância dos santos e orixás irmãos. A Nigéria, inclusive, é o país com o maior índice de nascimento de gêmeos no mundo inteiro.

- No modo africano de homenagear os Ibeji e também outros orixás, o pedido de esmola para a preparação da comida é um ponto fundamental. A mesma tradição já existiu na Bahia, mas foi abandonada pela maioria das pessoas. Entretanto, ainda é possível encontrar quem mantenha esse costume, inclusive fora da Bahia.

- Existem várias recomendações para quem faz o caruru, que cada um escolhe obedecer ou adaptar. Quem oferece o caruru deve cortar o primeiro quiabo e, depois de pronto, colocar a comida aos pés dos santos em vasilhas novas e fazer um pedido. A galinha do xinxim não pode ser comprada morta. Durante a festa não deve ser servida bebida alcoólica. E quem encontrar no prato um quiabo inteiro deve oferecer um caruru no próximo ano.

Sugestões de leitura

LIMA, Vivaldo da Costa. Cosme e Damião: o culto aos santos gêmeos no Brasil e na África. Salvador: Corrupio, 2005.


____. Oferendas e sacrifícios: uma abordagem antropológica. In: FORMIGLI, Ana Lúcia (Org). Parque Metropolitano de Pirajá: história, natureza e


cultura. Salvador: Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu/Editora do Parque, 1998, p. 57-65.


TAVARES, Odorico. Bahia: imagens da terra e do povo. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1951.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Pastoral da Juventude apoia Cia Teatrando



Moção de Solidariedade da PJ de Barreiras denuncia proibição “arbitrária” às manifestações culturais naquela cidade

Continua repercutindo nas regiões Oeste, Médio São Francisco e Chapada Diamantina a proibição da Cia Teatrando para apresentações em locais públicos na cidade de Barreiras. O ator e produtor cultural da Teatrando, Ramon Sousa, destaca a Moção de Solidariedade da Pastoral da Juventude – PJ de Barreiras, demonstrando, como ele diz, “o compromisso com a Juventude, a Democracia e as Causas Sociais. A exemplo de Cristo, vocês se mostram fieis a justiça social e a liberdade de expressão”, destaca

A Moção da Juventude foi enviada ao nosso blog pelo ator, diretor teatral Júlio Delfino e tem o seguinte teor: “Nós da Pastoral da Juventude de Barreiras, em reunião ordinária no dia 21 de agosto de 2011, manifestamos nossa solidariedade a CIA TEATRANDO que exerce sua cidadania através de manifestação artística/cultural em nossa cidade. A referida CIA TEATRANDO foi proibida por membros da gestão pública municipal de utilizar os espaços públicos para qualquer atividade cultural e apresentação de espetáculos”.

A moção assegura ainda que “por ocasião da II Conferência Municipal de Políticas Públicas de Juventude foi exaltada através de discursos a importância da participação da juventude na cultura e na arte. Como também foram formuladas propostas sobre arte e cultura e aprovadas na referida conferência. Solicitamos que, em respeito às propostas apresentadas na II Conferência seja levada em conta a participação dos jovens em espaços públicos municipais para exercerem seu direito de expressão através da arte e da cultura”.

Diz ainda que “em sintonia com a Campanha Nacional Contra a Violência e o Extermínio de Jovens repudiamos todo ato autoritário, humilhante e antidemocrático. Somos pessoas de paz e contra qualquer ato de violência que inferioriza, humilha e exclua os jovens. Somos a favor de uma realidade de VIDA, de respeito mútuo e de transformação social”. E conclui, pedindo “democracia e transparência na gestão pública de Barreiras. Chega de violência contra os artistas! Chega de violência e extermínio de jovens”!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ariano Suassuna está certo: isso não é forró

Um dos maiores nomes da cultura nordestina se revolta com a qualidade da nossa música. Confira o texto

Ariano Suassuna

“Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

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Professor baiano também se rebela



Se Luiz Gonzaga fosse vivo, provavelmente estaria amuado em algum canto do sertão do Araripe, decepcionado com o que estão fazendo com o ritmo em que era o maioral. O forró, essa deliciosa levada nordestina que é a melodia perfeita para escoltar esses dias de ternas fogueiras, coloridos balões e estrangeiras garoas, está sendo brutalmente desfigurado por essas bandas movidas a dançarinas de pernas grossas e cantores robotizados, que usam o tripé “cachaça, rapariga e gaia” para iludir milhares de jovens de que forró é isso. Deveriam ser processados por atentado aos nossos ouvidos.



Recentemente, o jornalista e escritor José Teles, crítico musical do Jornal do Commércio, de Recife, fez um ótimo artigo sobre o tema. Entre outras coisas, ele diz que esse tipo de musica está tão massificada na cabeça da meninada, que está criando uma perigosa cultura entre eles, na qual mulher é sempre safada e descartável, cachaça é pra beber até cair e carro não é apenas meio de transporte, mas lotação pra encher de raparigas. Ele prossegue dizendo que quando um cantor de uma banda chega a uma praça pública e pergunta se tem “rapariga na platéia”, alguma coisa está fora de ordem. E o que mais preocupa é que essa juventude, que tem a cabeça feita por esse tipo de música (musica?!), brevemente vai tomar as rédeas do poder. Ele está coberto de razão.



Eu cresci numa geração que foi moldada musicalmente pelas ondas do radio. De Orlando Silva até o novíssimo som que vinha de Liverpool, nada escapava ao bom e velho Transglobe Philco, que trazia até o sertão baiano todas as novidades sonoras que rolavam pelo mundo. Mas era o forró que predominava, tanto nas emissoras quanto no serviço de auto-falante de dona Nenê, que só vivia tocando Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e que tais. E só a partir dos anos 70 foi que o forró de duplo sentido começou a fazer sucesso, quando canções como Passei a noite procurando tu e Ele ta de olho é na butique dela estouraram no meio da garotada. Mas, comparadas com as de hoje, elas soam quase infantis.



Sinceramente, não sei até que ponto a música ajuda na formação de um garoto, nem no seu jeito de ser. Mas sei que ela o acompanhará pro resto da vida. Como agora, quando vez ou outra eu me pego assoviando velhas canções juninas, como aquela em que Gonzagão pede ao seu amor para olhar pro céu só pra ver como está lindo.

Já essa turma que abre a mala do carro e obriga toda a vizinhança a ouvir alguém berrando que vai beber cair e levantar me deixa bastante preocupado. Não só pela qualidade das canções que eles levarão consigo, mas principalmente, por que muitos seguem à risca esse horrível refrão e, depois de beber todas, saem dirigindo loucamente pelas ruas, correndo o risco de bater, cair e nunca mais levantar. Definitivamente, isso nunca foi forró. Muito menos o seu propósito.



Texto publicado em A Tarde no dia 12 de junho de 2008 na coluna Opinião pelo escritor Jânio Ferreira Soares(s.janio@globo.com)

domingo, 20 de março de 2011

Escritora aposentada é destaque em revista

Dona Zizinha com o marido Rosalvo Martins e a bisneta Luana

Aos 89 anos, após lançar primeiro livro, memórias vão parar na Revista do Instiuto Genealógico

Após a publicação do livre de memórias, “De Alzira a Zizinha testemunho de verdade e luta”, em setembro do ano passado, a professora aposentada Alzira Ribeiro do Espírito Santo teve a sua história de vida transformada em artigo que sairá no próximo número da Revista do Instituto Genealógico, edição 2011. Escrito pela jornalista Alessandra Nascimento, membro do Instituto Genealógico da Bahia, a publicação dará maior visibilidade ao trabalho da aposentada que se tornou escritora aos 89 anos, após um derrame que lhe tirou os movimentos, inclusive das mãos. A revista é uma publicação de prestígio e que tem entre os seus leitores os príncipes de Orleans e Bragança, herdeiros de D. Pedro II, associados do Instituto.

No artigo, intitulado “Memória, tradição e pensamento”, a jornalista Alessandra Nascimento, além de fazer uma análise crítica do livro autobiográfico da professora, que nasceu e reside em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, Bahia, mostra que a grande meta da autora foi a educação. “Sempre lutei pela educação e pela qualificação do professor. Mesmo enfrentando dificuldades nunca desisti, pois sempre entendi que a educação é a única arma que temos para mudar a história do nosso país e do nosso povo”, revela a autora, dona Zizinha, como carinhosamente é chamada pelos ex-alunos e todos que a conhecem.

Alessandra Nascimento é jornalista, repórter de economia do jornal Tribuna da Bahia, colunista do site Notícia Capital, pesquisadora e pós graduada em Metodologia do Ensino de História e Cultura Afro-brasileira. Ela conta ter ficado impressionada com a vitalidade da professora aposentado que, às vésperas de completar 90 anos, mostra-se em sintonia com a realidade. Revela em seu artigo que dona Zizinha lembra da emoção que sempre sentiu ao ver a evolução de um aluno na sala de aula. “Eu ficava muito feliz quando notava que a criança começava a ler. A leitura era um desafio para aqueles que iniciavam o bê-á-bá unindo as letras e, aos poucos, iam formando palavras. Das dificuldades próprias do começo aos risos de vitória por conseguir superar os obstáculos e ler uma simples palavra ou um pequeno texto. Minha alegria se renovava toda a vez que entrava na escola, via a sala arrumada e os meninos, com os cadernos nas mãos, aguardando a lição”.

A única reclamação da professora aposentada, conta a jornalista, vai para a lei 9.394, de 1996, que impede a reprovação. “No meu tempo o ensino era mais austero e ao professor era conferida mais autoridade. Os alunos corriam atrás do professor para adquirir conhecimento. Eles tinham dicionários e buscavam aprender o significado de cada nova palavra que se deparavam. Hoje em dia isso não acontece mais. Eles não correm mais atrás do conhecimento e não vejo ninguém com um dicionário nas mãos”.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CULTURA

Circuito Cultural e a Chapada Diamantina: diversidade e tradição




Até o dia 27, o Circuito Cultural da Chapada Diamantina/CCCD – Ano 2 acontece nas cidades de Andaraí, Mucugê, Rio de Contas e Irecê, além do Vale do Capão


Os grupos desta edição são: O Drama do Vale do Capão (Palmeiras), os Repentistas/Emboladores do pandeiro de Iraquara que estiveram no ano passado e os novos participantes: Jadson do Acordeom e os Mascarados de Rio de Contas. O Circuito tem a curadoria e direção artística do diretor baiano Paulo Atto que possui um longo histórico de relação com as comunidades e os grupos artísticos do interior do estado.” A força destas manifestações está sobretudo na sua espontaneidade e nascem do contexto histórico e social da região” registra Atto.
Neste final de semana temos apresentações em Andaraí no Centro Cultural da Mangueiras, sábado, 20 em Mucugê no Centro Cultural e domingo, 21, em Irecê no Auditório do Colégio Modelo.Todas as apresentações são gratuitas.

O Circuito Cultural da Chapada Diamantina cria condições para a circulação das manifestações artístico-culturais da região valorizando e divulgando a cultura local, as manifestações populares, as tradições e a memória de cada comunidade. Uma das idéias centrais do projeto é além da divulgação do trabalho dos grupos a elaboração de material,gráfico,vídeo e fotográfico que é cedido aos grupos para que os mesmo possam ter um registro documental de suas produções e assim manter a memória do trabalho e das tradições da região.

A Chapada Diamantina é uma das regiões mais belas do país com características climáticas e geográficas ímpares e além do patrimônio natural possui uma histórica que remonta à colonização e aos ciclos do ouro e do diamante responsáveis pelo aparecimento de cidades como Rio de Contas e Mucugê. As cidades guardam o reflexo dessa história através de bens imóveis do patrimônio artístico e arquitetônico e de outro lado bens imateriais como manifestações culturais que foram transmitidas através de gerações que mantém os laços sociais dos grupos e reforçam a identidade e a diversidade cultural da região.

Nesta segunda edição do Circuito Cultural da Chapada Diamantina/CCCD estamos ampliando o projeto para cinco cidades, mantendo o Vale do Capão em Palmeiras, e incluindo as cidades de Andaraí, Mucugê, Rio de Contas e também levando-o a cidades da região fisiográfica denominada de Chapada Diamantina Setentrional, onde está localizado o município de Irecê.